sábado, 23 de julho de 2011

AFTERGLOW*

Desculpem o silêncio. Por vezes me permito a estes hiatos. Tempo para repousar. Isolamento preciso na escuridão do quarto. Escondido nas letras de um livro ou mesmo envolvido no manto de uma canção solitária com letra longa e melodia inebriante. Tão extensa que me perco nas palavras.

Talvez seja proposital ficar perdido no labirinto das coisas esquecidas, postas de lado, vírgulas sem pontos... Nenhum intervalo! Uma corrida para dentro de mim. Fechar os olhos na intenção de contemplar o invisível da alma. 

É a vontade de encarar todos os sentimentos. Apontar qualquer um deles e intimidá-los. Perscrutar as razões, duvidar das dúvidas, aceitar as exclamações, diminuir as interrogações, tentar encontrar o caminho de volta e perder o caminho... 

Fechar as portas. Abri-las novamente. E aguardar o alvorecer
.
E é ai que mora a razão de minha reclusão. O exercício de se esconder, para logo em seguida se encontrar, vale a pena o tempo no esconderijo. Tudo para poder se reencontrar novo, revigorado, pronto para rever o dia.

E quem sabe, após a luz*, o que parecia tenebroso não passe de um simples engano das retinas cansadas de observar o banco da praça. 

E, saber, que quem estava usando-o não permanece mais vazio.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

L I B E R D A D E


Já se encontra à toa nas ruas, livres, sorridentes, recebendo aplausos e abraços de congratulações o álcool e o cigarro, o falso forró com suas letras indecorosas, o sexo fácil, os filmes com seus roteiros sangrentos e descartáveis, a loteria estatal, o adultério em telenovelas, a baixaria em pretensos realitys shows, o interesse pela vida vazia de algumas celebridades, a libertinagem na mídia, a banalidade nos relacionamentos.

E em becos e vielas escuras, longe dos olhos da justiça, a impunidade, a corrupção, a violência desenfreada, a pedofilia, as bofetadas em mulheres e crianças, o craque, o aborto, a sonegação de impostos, o racismo, os traficantes, os maus políticos, as negociatas, o favoritismo em repartições e instituições públicas, o descaso do governo, o abuso do poder econômico, a escravidão nas relações trabalhistas, o roubo nos cofres dos contribuintes  transitam por ai usando óculos escuros, chinelos de dedos e boné como um turistas em férias.

Viva a liberdade.

E nestes últimos dias uma multidão com cartazes e faixas perâmbula pelas avenidas pedindo pela descriminalização da maconha.
 
Viva a liberalidade

Logo logo a liberalidade, libertinagem e a liberdade serão apenas uma em um único e exclusivo propósito e interesse: promover o ideal de modernidade e sofisticação

Quem sabe assim os grilhões invisíveis dos padrões e virtudes deixem de existirem e os homens estejam encarceradamente libertos. 

Viva!!

domingo, 19 de junho de 2011

NO MEU LUGAR




Eu pensei que estava perdido...
                                      
                                       A música tocava e eu não compreendia...

Imaginei estar num sonho...
                                      Fiquei atento ao absurdo:
                                                   ...um cavalo alado faltando uma das asas...

 ...uma mulher vestida de orvalho...
                                                                         ...crianças guiando leões...

 ...uma nave vinda do espaço sideral com uma bandeira negra...
                       
                  ...a lua partida ao meio, o mar fervilhando, dois homens e a música tocando!
           
      ...“please please”...

Conseguir lhe alcançar...
Você não existia...
Eu também não existia...
Meu avô arando a terra...
Plantações de algodão azul...

Eu não entendia a letra. Eu estava assutado, confuso... Comecei a chorar. Achei tudo estranho. Não me deixe sozinho... Por quanto tempo lhe esperei... Passei do ponto... O ponto... o ponto final...

“Please... Please...                                                                     
                                                                            ...

A música ainda tocava quando despertei e percebi que estava no meu lugar de sempre quando retorno do trabalho e quero recarregar as energias: meu quarto, deitado, a janela aberta, suado, quinta-feira dormindo, pai e mãe dormindo, escuridão. No canto, próximo a rede, apenas um aparelho de som acordado me assombrando com uma musica em inglês. Adorei a canção. Não sabia exatamente quem estava cantando. Nem ao certo o que era a canção. Sentir uma leve sensação de melancolia em seu ritmo. Fui arrebatado em introspecção... Um turbilhão de coisas incompreensíveis... Alma inebriada.  Adormeci novamente sem saber que musica era e a quem pertencia sua composição. Descobrir, na manhã seguinte, ao mencionar aos colegas do trabalho sobre o som e o sonho enigmático que In my Place, pertencia a banda ColdPlay.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

I N C O N F O R M A D O

Não sou um conformado. Não aceito com facilidade as coisas. Não consigo aceitar um “SIM” quando deveria ser um “NÃO”. Nem tão pouco o inverso. Acredito que tudo possui uma terceira via. Há outra saída. Acredito nas saídas.
Quero dizer que acredito em alternativas. Alternativas e oportunidades são primas ou irmãs? Prefiro crê em irmandades. As oportunidades existem quando há alternativas. Ambas são filhas da ESPERANÇA. Por este motivo sou um inconformado.
Estou convicto de que a maioria das coisas ou situações poderia ser nos favoráveis ou que haveria outro resultado. Não pertenço a ala dos pessimistas de plantão nem tão pouco otimistas atentos, mas sinto-me seguro  em afirmar  de que tudo na vida são passiveis de alterações.
O futuro é uma pagina em branco. Não tenho receio em afirmar isto. Talvez alguém insista em mencionar que a vida não é assim, que não temos controle sobre determinados acontecimentos, que tudo está conectado e conduzido pelo destino traçado, etc etc etc...
Concordo em parte, mas a outra parte que me cabe insiste em crê de que muitos acontecimentos são sucessões de ações realizadas dentro do arbítrio moral de cada um. Ou seja, muitas situações é o produto de nossas ações individuais, mesmo estejamos envolvidos ou não.
Houve sim uma intervenção humana no acaso desconhecido do amanhã chamado destino. Não aceito ser um agente passivo. O destino é o fruto de interesses pessoais. Mesmo que seu interesse não prevaleça nos resultados o resultado positivo ou não resvala em sua vida a qualquer hora do dia ou da noite.
Cabe a cada individuo resolver o que fazer com ele. Eu prefiro examiná-lo verificando o teor de seu conteúdo e logo em seguida aplicar ação necessária de modo que o que parecia impossível seja uma possibilidade eminente.
O impossível é uma determinação do desejo em realizar ou não o realizável. O tamanho da força em proporcionar o fim pertence a mim. Sou eu quem decide sua intensidade.
Posso sofrer com as adversidades? É provável que sim. Porém, se o sofrimento me conduzir a excelência então o elemento adversidade, neste caso, cumpriu o seu papel refinador.
E que tipo de sujeito serei? Um sujeito resignado e conformado? Acredito que não. Se tiver realmente ocorrido um aprendizado eu terei me tornado um elemento que compreenderá que os outros elementos serão necessários para o resultado final.
Criando, desta maneira, resistência a imoralidade, ao desrespeito, a infame impunidade, ao orgulho feio e deselegante, a perfídia, e a tudo que pode entorpecer a sensibilidade.
Se assim fizermos seremos, digo seremos, não somente inconformados, rejeitando o mal transvestido de uma falsa popularidade, mas seremos verdadeiros heróis da resistência.
Não cederemos tão facilmente.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Conto# Destinatário Ausente


São João do Céu, 31 de Agosto de 1994
Eu resolvi te escrever. Eu tinha prometido que não iria fazer isto, mas preciso te dizer algumas coisas. Algo que ficou engasgado desde daquele dia quando você resolveu sair de casa. Ainda me pergunto que danado aconteceu pra você tomar tal decisão.
Eu achava que te fazia feliz. Que tudo que tinha realizado estava causando um efeito positivo. Sonhei com você esta noite. Quase todos os meus sonhos terminam com seu sorriso no fim. Sinto sua falta. A casa está tão vazia. A sua ausência está me consumindo. Tudo aqui fala de nós: as cadeiras, o sofá, os talheres...
Mesmo agora, para redigir esta carta, eu tento não lembrar que estou sozinho. Sabia que você esqueceu sua escova de dente?Quando vem pegar?Ainda moro no mesmo lugar. Embora eu deseje fugir daqui todas as noites quando chego do trabalho, eu ainda moro aqui. No mesmo endereço.
E, na verdade, aguardo a sua visita. Lembra-se que te perguntei se iria me visitar? Pois é, ainda não veio. Soube que esteve na cidade, então fiz almoço, troquei os móveis de lugar, e sentei ao lado do telefone. Nada. Ele não tocou. Acho que vou cancelar a linha. Ninguém me liga mesmo.
O que anda fazendo? Tenho certeza que pretende sair pelo mundo a fora. Sempre me disse que um dia faria as malas e diria “ADEUS” a tudo e a todos e que sua casa seria a estrada. Passe por aqui antes de partir e me leve contigo. Quem sabe podemos nos divertir bastante por ai...
Mas me diga uma coisa: Tem alguém com você? Faz tanto tempo que é bem capaz de está namorando. Não tem problema. Quero apenas que seja feliz. Ainda penso naquela viagem que fizemos para o litoral. Você estava muito ansiosa.
Fiquei emocionado quando percebi que era a primeira vez que via o mar. Tudo aquilo era novo e nos pertencia. O mar com sua imensidão, você e o espanto de felicidade, e eu lá lhe observando e te adorando... E tomando posse de tudo.
São tantas coisas. Não quero dizer mais nada. Nem sei dizer mais nada. Desaprendi a dizer. Você partiu e eu vejo o seu rastro em todo o canto da casa. O ar está impregnado com seu cheiro. Ainda ouço sua risada. Ontem mesmo me encontrei falando sozinho. Pensei ouvir você me perguntando alguma coisa...
Alguma coisa... Não sei exatamente. O que sei exatamente é que sua falta me é constante. E o engasgo também. E é sobre isto que resolvi te escrever.
O que ficou engasgado desde aquela tarde sombria, até hoje, enquanto você me dizia sentada na cama com os olhos fixos, exatos, decididos, malas prontas, objetos repartidos, que iria embora, e que não me dava a chance de reparar o que nem sei que precisava ser reparado, era somente uma coisa, e ver você ir, porta abrindo, porta fechando, lábios contraídos, mãos vazias, passos morrendo na escada, batida do portão, chave pendurada do lado de fora, saudade, saudade...
O que faltou era dizer isto: EU TE AMO.
                                                                                                Morzão.

domingo, 15 de maio de 2011

A N S I E D A D E




A morte é uma vírgula apenas.

Uma vírgula seguida por outras vírgulas.

Enquanto ansiamos, aqui, pelo ponto final.
                                                                 Angelo Potiassú

sábado, 14 de maio de 2011

E M A N U E L


Comentei com um amigo outro dia que a vida é um objeto frágil. Que estamos suscetíveis a muitos acontecimentos que podem interromper ou tolher seu prolongamento. Mencionei também que somos constituídos de uma matéria profundamente vulnerável. Ele concordou meio que desapontado com esta realidade humana.

Estes fatos realmente assombram, perturbam e comovem. Assustam, porque os incidentes que meramente sucedem a outrem podem variavelmente nos alcançar. E neste caso, tomados de comoção, nos colocamos nestas mesmas situações tentando mensurar a dor, calculando as conseqüências que tais eventos poderiam provocar a nós mesmos. 

Agimos assim, simplesmente porque também sofremos a influência dos elementos fomentadores da existência do homem nesta esfera terrena. A consciência desta fragilidade perturba porque ela é invariavelmente imprevisível. 

Não foi concedido o controle sobre o tempo nem as intempéries. O alimento que não é conservado adequadamente apodrece e é inutilizado. A planta que não recebe água e adubo necessário morre. É inevitável. São leis irrevogáveis.

A maré quando baixa revela a vida que ficou no fundo do mar. Algumas estrelas se apagam quando o sol desponta no horizonte avisando que o dia nasceu e que a noite vem logo a seguir. A noite pode ser repleta de surpresas. Assim como o dia foi permeado com acontecimentos agendados e não agendados.

Contudo, não precisamos ficar aterrorizados com expectativas ruins, apenas precisamos entender a ordem das coisas e da superioridade da correlação divina. 

Minha semana começou silenciosa. Apenas o som da rotina e da chuva que todo dia nos aparece sempre às 13 horas limpando as ruas e acumulando, nos bueiros, o lixo que as pessoas jogam nas ruas.

Segunda-Feira, e seu tédio se foram. Terça e Quarta-Feira, espirros, espirros, e suprimentos de vitaminas C.A Quinta, tomei chá e mais chás para espantar a gripe. 

Sexta-Feira 13, num telefonema, meu dia foi atropelado com a notícia de que meu Tio “Nenel” foi encontrado sem vida numa calçada do Rio de Janeiro vítima de não sei o quê. 

Durante muito tempo acreditei que seu nome era Emanuel, mas ele se chama Manoel Tenório de Moura.
Eu prefiro continuar chamando-o de Emanuel, e que Deus esteja com ele e conosco.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

N A T I V O


Um Índio
Composição : Caetano Veloso

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá

Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás e todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor, em gesto e cheiro
Em sombra, em luz, em som magnífico

Num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico
Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito

(Refrão)

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Ponto de Chegada


Fico me perguntando: O que realmente caracteriza um vencedor? O que diferencia uma pessoa que chegou lá de outra que ainda não chegou? Que elementos são encontrados na personalidade de alguém que é considerada de sucesso? E o que é sucesso? E quem determina onde fica este “chegou lá”?
Estes questionamentos iniciais deveras nos colocarão numa posição reflexiva. Podem existir outras interrogações ainda mais reveladoras. E quem sabe, talvez, nos apontarão caminhos nunca antes trilhados.
Por exemplo, é o objeto que sinaliza um vencedor ou o indivíduo é quem escolhe o objeto? Num pódio, é fácil reconhecer o primeiro colocado, pois este local é um sinal de que muitos ficaram para trás e somente um deva receber o troféu de campeão.
Então, quer dizer que, ser o primeiro em alguma disputa implica dizer que alguém vai perder somente porque chegou em segundo,terceiro, ou em quarto lugar, e que eu sou o único vencedor porque sou  o mais rápido?E por isto devo receber o prêmio?
Ou Simplesmente porque a medalha está comigo e não com os outros? Mas os outros também não correram?”Sim, todos correram, porém eu cheguei primeiro”. Eu poderia ouvir esta afirmação. E, na verdade, esta resposta seria a comumente aceita.
Contudo, levanto a seguinte questão: Se nesta corrida muitos correram e completaram o percurso atravessando a linha de chegada, então porque só um leva a medalha? E esta referida premiação representa o que exatamente?
Acredito que deva representa muitas coisas. E, acredito também que o significado maior seja para quem a receba. É ele quem lhe atribui o seu digno valor. Que pode ser relativamente diferente para cada um. Até mesmo para o leitor que ler este artigo quanto para quem o escreve.
O olhar sobre o prêmio é particular. Intrinsecamente particular. Embora, haja alguma unanimidade quanto a este ou aquele prêmio.
Veja só: Quem venceu a maratona dos jogos olímpicos de 1984 em Los Angeles?
A suíça Gabrielle Andersen entrou no estadio cambaliante terminando a corrida em 37ª lugar.Ela não subiu ao pódio,mas foi ovacionada.E nem lembramos de quem chegou em primeiro.
De que material é revestida a armadura de um vencedor? Resistência, persistência, perseverânça, disciplina, humildade, perdão, arrependimento, ternura, compaixão, honra, coragem, honestidade e virtude podem construir a história de um verdadeiro campeão.
Se a estrada é curta ou longa,  se será o primeiro ou o último a cruzar a faixa de chegada, se será lembrado ou não, quem vai decidir ser o vencedor é você mesmo, pois a vitória é de quem corre.

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